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 Rio Claro, 03 de Setembro de 2010
 

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Sexta, 03 de Setembro de 2010
A Trajetória do Eucalipto
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Desde o início do século 20, quando começou a ser plantado para fins comerciais, o eucalipto desperta ataques e mobiliza defensores. A versão mais divulgada pelos seus críticos é de que essa árvore desequilibra o meio ambiente, não atrai aves e - o pior de tudo - drena os solos. As críticas aumentaram a partir dos anos 60, quando o eucalipto, eleito como a espécie mais adequada para a fabricação de celulose e de carvão vegetal, liderou as estatísticas de reflorestamento financiado por incentivo fiscal pelo governo federal.

O documento abaixo transcrito, foi publicado no Jornal "O Estado de São Paulo", no dia 20 de junho de 1927. Tal documento, contêm críticas feitas pelo Prof. Othoniel Motta em artigo intitulado "Nossa Flora". Motta escreveu este artigo após ler no mesmo jornal, dissertações de Edmundo Navarro de Andrade sobre suas pesquisas frente ao Serviço Florestal da Companhia Paulista de Estradas de Ferro, publicadas por ocasião do centenário de Rio Claro.

Desde o início do seu trabalho para a "Paulista", Navarro vinha sofrendo críticas, a maioria grotescamente colocada, feitas pelos chamados "nacionalistas". Esses se irritavam com o fato de que grandes faixas da zona rural estivessem sendo ocupadas por uma árvore exótica e não por espécies nativas. Tal objeção não tinha fundamento. Na época o país dependia economicamente do café, cítricos, e outras tantas espécies exóticas. O fato de que o eucalipto secava as águas superficiais passou a ser debatido (atualmente sabe-se que tal teoria não tem fundamento). A substituição da floresta nativa por grandes extensões de bosques homogêneos de eucalipto era uma transformação que causava incômodo à muita gente.

Mas a história nos prova que Navarro foi o único conservacionista bem sucedido em sua época.

Na coluna da próxima semana você poderá ler a carta que Edmundo enviou à Plínio Barreto, redator do "Estado", rebatendo esse artigo, e que nunca foi publicada.

Nossa Flora

A necessidade de revestir o solo está-se fazendo sentir imperiosamente. A calamidade que ameaça nosso Estado grita tão alto, que não há indifferença, a dormir surda como um lagarto, que não acorde por fim do seu torpor.

Mas, como todo estremunhado, ella não sabe, no seu sobresalto, como orientar-se seguramente.

Só um caminho se lhe afigura bom, acertado, pratico: rumo ao eucalypto!

Não maldigamos o eucalypto: pelo contrario, bemdigamol-o de mãos postas, porque de facto é elle a salvação mais prompta, se os poderes publicos não vierem pôr obices ao seu plantio, em vez de o favorecerem em larga escala. E graças a Deus o interesse por essa planta já se acha, creio, tão generalisado em nosso meio, que o que se pede aos poderes publicos não é o favor de abrirem portas á iniciativa particular, mas a simples misericordia de não se fecharem impatrioticamente, numa deploravel acção que nos trará consequencias desastradas.

No entanto, parece-me, a visão unilateral do eucalypto é um erro, é um perigo, é uma salvação "parcial" do nosso problema, com sacrificio de coisas sagradas que o nosso patriotismo, o nosso pundonor nacional deve conservar como em um nicho, se queremos ser verdadeiramente respeitados pelo estrangeiro e pela nossa propria posteridade.

Imaginemos por um momento sequer todo este nosso solo nababesco, com seu scenario riquissimo de arvores magníficas, quer ostentando, como o jequitibá, a esplendorosa pujança de sua copa altaneira, quer ostentando, como o ipê, não só o tronco robusto, a folhagem bella, mas ainda o deslumbramento de suas flores; imaginemos tudo isso transformado, de uma hora para outra, na monotonia perenne de uma floresta de eucalyptos! Haverá uma alma brasileira, uma alma paulista que se conforme tranquillamente com semelhante idêa? Se ha, peço licença para ter della uma infinita compaixão.

Seria acordarmos de um sonho "apocalyptico" para uma insipidez "eucalyptica..."

"In medio virtus". O Eucalypto, por sua precocidade, por sua adaptação a qualquer terreno, é, certo, uma bençam singular, que devemos agradecer ao Ceu de todo o coração.

Seguramente será elle o que irá transformar em riqueza todas essas zonas maninhas e desoladas, em que só o heroico cambará reponta de um solo pauperrimo, num prodigio de esforço, como que a se retorcer na agonia. Será elle o que transformará essas terras desnudas em bombas que mandem para as alturas as chuvas, que vem minguando anno após anno.

Plantemos, sim, plantemos eucalypto; o que, porém, reclamo é que não se plante só elle.

Elle não poderá nunca substituir nossas madeiras resistentes, como a cabiuna, o guarantan, a orindeuva. Não poderá jamais substituir o cedro e outras madeiras no fabrico de mobilias. É, pois, uma bençam "parcial".

A Companhia Paulista possue milhões de pés de eucalypto; no emtanto, quando precisou agora de postes valentes para o seu trabalho de electrificação, lá foi pedir auxilio ao nosso "guarantan velho de guerra", que a Noroeste - a zona agora immolada - lhe poude fornecer.

Mas - dizem - a cabiuna, o guarantan, etc., levam quarenta ou cincoenta annos para se formarem completamente. Um individuo, que precisa viver, não pode esperar esse tempo.

Ha nesta objecção uma grande somma de verdade. Mas eu respondo á objecção do seguinte modo. - Em primeiro logar, esse individuo, se é de espirito bem formado, deve lembrar-se de que o homem não vive só para sí, e que elle precisa de fazer alguma coisa pelos seus, que lhe hão de succeder. Plante, para elles "alguma coisa" dessas arvores abençoadas, sem rivaes, que Deus nos concedeu.

Mas, se a objecção tem fundamento quando encaramos os individuos, perde toda a força quando encaramos as instituições de caracter permanente, como os governos e as estradas de ferro.

O deixarem estas acabarem-se madeiras de lei, de que ellas necessitam, sem as replantar para o futuro, é coisa que não me é dado comprehender.

Que vêm a ser quarenta annos para uma instituição permanente?

Mas acresce que algumas dessas madeiras são de crescimento precoce relativamente. O cedro não só é precoce, mas pega de galho. Grandes vantagens. Os pyxidios - que elle produz em quantidade - são um combustível oleoso de primeira ordem. A arvore, em vez de exsiccar a terra, como faz o eucalypto, a refresca e fecunda.

A orindeuva ou arneira preta - reputada mais resistente que o guarantan - tambem é precoce e tambem pega de galho.

Pois deixaremos todas essas nossas riquezas tradicionaes, insubstituiveis, ir desapparecendo pela obsessão do eucalypto tão sómente? Não e não. É preciso um meio termo neste assumpto, dita-nos o bom senso e o coração.

Othoniel Motta

História, Geografia e Meio Ambiente por Augusto Jeronimo Martini

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